7 de agosto de 2017

Ecolalia: o que é e o que fazer a respeito

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Por Carla Ulliane

Mês passado, o pai de um dos meus pacientes fez o me perguntou: “Essa mania de ficar repetindo trechos dos desenhos preferidos mostra que ele tem uma boa memória, não é?”. Eu lhe expliquei que esta era uma característica bastante comum no autismo. O nome disso é Ecolalia. Se você convive com crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista, com certeza já presenciou a repetição de palavras e frases inteiras.

Antes de mais nada é importante destacar que a linguagem das crianças com TEA apresenta particularidades, não seguem um desenvolvimento típico ou esperado. Este modo atípico é caracterizado por:

  • Inversão Pronominal: dificuldade em utilizar o pronome na primeira pessoa;
  • Inflexibilidade nas Interações Sociais
  • Ecolalias Tardia: repetição de trechos de comerciais ou fala de desenhos;
  • Ecolalia Imediata: quando repete a frase ou a última palavra durante o diálogo.

De acordo com Andressa Saad:

“Foi observado que essas repetições podiam ocorrer pouco tempo ou imediatamente após a afirmativa modelo, ou ainda, após um tempo significativamente maior de sua produção, sendo denominadas como ecolalia “imediata” e “tardia”, respectivamente. Desde então, estas têm sido consideradas as duas categorias gerais de ecolalias identificadas.”

Afinal, o que significa a palavra Ecolalia? Frequentemente a definição mais utilizada é “uma repetição em eco da fala”. Desde as suas primeiras descrições em 1943 pelo médico Leo Kanner, o fenômeno vem sendo associado como uma característica presente na linguagem das crianças com autismo.

O que as pesquisas dizem sobre a Ecolalia?

As pesquisas mais recentes defendem a ecolalia como um meio de intenção comunicativa por parte da criança com TEA. Neste sentido, seria uma maneira “primitiva” de estabelecer contato social com o outro, principalmente quando a criança se encontra diante de uma linguagem que está além das suas habilidades linguísticas.

O primeiro estudo que buscou investigar a presença de intenção comunicativa, como também suas funções específicas nas ecolalias imediatas foi realizado com 4 crianças autistas bastante ecolálicas. Os resultados do estudo confirmaram a hipótese de que há realmente intenção comunicativa nas ecolalias imediatas. Eles confrontaram e modificaram o caminho percorrido pelas pesquisas realizadas até então, tanto na área de linguagem como do comportamento em crianças com TEA.

Outro estudo foi realizado com o mesmo objetivo, mas analisando as ecolalias tardias. Os resultados desse estudo mostraram que os sujeitos utilizaram mais ecolalias tardias interativas do que não interativas, constatando que a intenção comunicativa pode ou não estar associada à produção da ecolalia tardia.

O que podemos concluir dessa pesquisa? Que a ecolalia tardia pode vir acompanhada de intenção comunicativa ou não. O que evidencia que isso está diretamente relacionado com o contexto na qual a ecolalia ocorre. Após essas constatações, foi despertado o interesse de outros pesquisadores da área sobre as produções ecolálicas em crianças com autismo.

Muitos estudiosos consideram a ecolalia apenas como uma característica comum das dificuldades de linguagem no autismo. Contudo, é importante buscar compreender sua presença dentro de um contexto e, principalmente, considerar a pessoa que fala. Lembrando que nem sempre a ecolalia vai se apresentar como uma intenção comunicativa, pois em algumas situações ela pode surgir apenas como uma fala estereotipada, como foi citado anteriormente o grupo das Ecolalias tardias não-interativas. De acordo com Andressa Saad:

“É no uso da ecolalia que se alcançam falas mais criativas. Inibir a ecolalia é inibir fala.”

“Devido às dificuldades de interação de pessoas autistas descritas na literatura, consideramos esta estratégia comunicativa de grande valor. Estudos de diversos autores nos dão exemplos de como a ecolalia pode ser útil à prática clínica.”

E o mais importante de tudo:

“Aceitar, compreender, contextualizar é inseri-la no contexto comunicativo.”

E o que os pais devem fazer?

Para responder isto, vou contar um exemplo que eu vivi enquanto terapeuta. Atendo uma criança com 5 anos, que foi diagnosticada com autismo aos 4 anos de idade. Ela comunica-se verbalmente com presença de ecolalias. Ela adora desenhos animados, principalmente o da Dora Aventureira e sempre trazia ao consultório trechos do desenho, como: “agora é a minha vez”, “pronto”, “obrigada” entre outros.

Qual foi meu posicionamento diante das ecolalias tardias? Simples: busquei aceitar, compreender, contextualizar e inseri-las dentro de um contexto comunicativo por meio de atividades lúdicas. Aos poucos a paciente foi compreendo o momento mais adequado socialmente para dizer a palavra “obrigada”. Por exemplo: quando ela dizia “agora é minha vez”, eu entregava a bola para ela e, em seguida, quando ela me dava a bola, eu falava: “agora é a vez de tia jogar a bola”.

Essa é uma dica importante para vocês mamães e papais. Busquem ressignificar a ecolalia dos seus filhos e interajam com eles de modo mais espontâneo e eficaz.

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